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Sábia como Clarice

  • Writer: Mari Lima
    Mari Lima
  • Mar 20, 2025
  • 4 min read

Clarice Lispector não é apenas uma escritora que aparece na lista de leitura obrigatória dos vestibulares. Ela é muito mais do que isso: é uma daquelas vozes que atravessam gerações, conquistando leitores que nasceram décadas depois de sua morte. Clarice não só escrevia livros, ela criava experiências de leitura. Ler Clarice é se perder e se encontrar ao mesmo tempo, como se alguém estivesse traduzindo sentimentos que você nunca conseguiu colocar em palavras.


Talvez seja por isso que, mesmo sendo uma autora que publicou sua primeira obra em 1943, ela continua aparecendo em timelines, frases de status e posts no Instagram em 2025. Clarice virou quase um “estado de espírito” e entender quem ela foi ajuda a entender por que ela nunca sai de moda.



Do Leste Europeu ao coração do Brasil


Clarice nasceu em 1920, em Chechelnyk, na Ucrânia, durante um período devastado pela guerra. Filha de uma família judaica, veio para o Brasil ainda bebê, em 1922, junto com os pais e as duas irmãs. O destino inicial foi Alagoas, mas foi em Recife que Clarice cresceu, aprendeu português e começou a se apaixonar pela literatura.


Mesmo criança, Clarice já se destacava. Gostava de ler Monteiro Lobato, mas também mergulhava em obras complexas, como Dostoiévski. Aos 12 anos, escreveu um conto chamado Triunfo, uma prévia da ousadia que marcaria sua carreira. Quando adolescente, mudou-se para o Rio de Janeiro. Estudou Direito, mas logo ficou claro que sua vocação não estava nos tribunais. Era na escrita que ela se sentia viva.



O nascimento de um “furacão”


Aos 24 anos, Clarice publicou seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem (1943). O impacto foi imediato. Diferente do que se publicava na época, o livro mergulhava na mente da protagonista de forma fragmentada, introspectiva, quase caótica. O crítico Antonio Candido não hesitou em descrevê-la como um “furacão”. A comparação fazia sentido. Clarice trouxe algo novo, intenso e transformador para a literatura brasileira.


Depois desse início explosivo, ela nunca mais parou de escrever. Vieram livros como O Lustre (1946), A Cidade Sitiada (1949), A Maçã no Escuro (1961), A Paixão Segundo G.H. (1964) e Água Viva (1973). Cada obra era um mergulho ainda mais profundo na mente humana.


Uma das marcas da escrita de Clarice é sua habilidade de transformar o cotidiano em filosofia. Ela não precisava de grandes acontecimentos para criar literatura. Um gesto simples, como olhar uma barata, podia render reflexões sobre o sentido da existência.


Em A Paixão Segundo G.H., a protagonista vive uma experiência quase espiritual ao esmagar uma barata. Parece bizarro? Talvez. Mas é justamente essa coragem de levar o trivial ao extremo que faz de Clarice uma escritora única.


Ela mesma dizia:

“Escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida.”


Clarice jornalista


Nem todo mundo sabe, mas Clarice também teve uma carreira sólida como jornalista. Escreveu para jornais como o Correio da Manhã, Diário da Noite e Jornal do Brasil. Suas crônicas falavam sobre tudo: infância, maternidade, solidão, amor, saudade. Ela era literalmente uma especie de blogueira do passado hahaha.


O mais interessante é que, mesmo nesses textos curtos para jornal, Clarice conseguia ser profunda sem ser complicada. É como se ela fosse capaz de conversar com qualquer pessoa, de donas de casa a intelectuais, sem perder a intensidade.


Algumas frases dela dessas colunas continuam atuais até hoje, como:


  • “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”

  • “Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania. Depende de quando e como você me vê passar.”

  • “Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.”


Entre o Brasil e o mundo


Clarice também viveu fora do Brasil. Casou-se com o diplomata Maury Gurgel Valente e, por causa da carreira dele, morou em cidades como Nápoles, Berna e Washington. Essa experiência internacional deu a Clarice um olhar ainda mais amplo sobre o mundo, mas também a fez sentir falta do Brasil e da língua portuguesa.


Durante esse período, nasceu seu lado mãe: Clarice teve dois filhos, Pedro e Paulo. Pedro, mais velho, foi diagnosticado com esquizofrenia ainda jovem, e isso marcou profundamente a vida dela. Muitos estudiosos acreditam que a relação intensa com o filho influenciou ainda mais a profundidade de sua escrita.



Clarice e o mistério de ser Clarice


Quem convivia com ela descrevia uma mulher de beleza enigmática, tímida e intensa. Nas entrevistas, falava pouco, mas cada palavra parecia pesar toneladas. Perguntada sobre por que escrevia, ela disse: “Eu não escrevo para agradar ninguém. Escrevo porque preciso.” Essa honestidade brutal talvez seja um dos motivos pelos quais leitores jovens ainda se identificam com ela.


Outro traço marcante era o humor. Apesar da fama de “densa”, Clarice também tinha ironia e uma forma divertida de olhar o mundo.


Clarice nos dias atuais


Hoje, Clarice Lispector virou quase uma “estrela pop” da literatura. Frases dela circulam em memes, cards motivacionais e até tatuagens. A ironia é que, muitas vezes, são frases falsas atribuídas a ela, um fenômeno tão comum que já virou piada na internet: “Todo texto sem autor é automaticamente de Clarice Lispector.”


Mas, de certa forma, isso só mostra o quanto sua imagem virou símbolo. Mesmo quando não é exatamente ela quem disse, as pessoas sentem que poderia ser.



O legado


Clarice morreu em 1977, um dia antes de completar 57 anos. Deixou uma obra vasta, traduzida para diversos idiomas, que segue sendo estudada, relida e sentida. Seu legado é duplo: por um lado, uma literatura inovadora, que mudou os rumos do romance brasileiro; por outro, uma sabedoria sobre a vida que ultrapassa páginas.


Clarice nos lembra que não precisamos entender tudo para viver intensamente. Que a vida é feita de perguntas, não apenas de respostas.


Thank me later!


Sábia como Clarice


O segredo de Clarice Lispector não está apenas nas palavras, mas na forma como ela viveu e escreveu com intensidade, com dúvida, com coragem de mergulhar no que é incômodo.


Ler Clarice é, no fim, um convite: a olhar o cotidiano com mais curiosidade, a aceitar nossas contradições e a perceber que a vida é feita de detalhes. Ler Clarice é aprender a sentir mais. Como ela mesma disse:

“Sou tão misteriosa que não me entendo.”

E talvez seja aí que esteja sua magia: ela não entrega respostas prontas. Ela nos dá a liberdade — e o desafio — de encontrar as nossas próprias.


Obrigada pela leitura! 😊

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